20 de mai de 2015

Impacto do Herbário Virtual da Flora e dos Fungos na e-Infraestrutura Rede speciesLink


O desafio de conhecer e utilizar de forma sustentável os recursos naturais demanda o acesso dinâmico e aberto a dados digitais de diferentes áreas do conhecimento, ferramentas de análise e capacidade computacional crescente em um ambiente colaborativo e cooperativo. A era da ciência intensiva em dados é uma realidade e o seu sucesso depende da consolidação de e-infraestruturas como bens públicos.

O CRIA é uma associação civil sem fins lucrativos que tem por objetivo disseminar o conhecimento científico e promover a educação visando a conservação e utilização sustentável dos recursos naturais e a formação da cidadania. Tem como ação referencial oferecer apoio à comunidade científica na organização, estruturação e disseminação de dados e informações de forma livre e aberta. Desde julho de 2002 é qualificada pelo Ministério da Justiça como uma Organização da Sociedade Civil de Interesse público – OSCIP.
Em 2001, como parte do programa Biota/Fapesp o CRIA iniciou o desenvolvimento da rede speciesLink, como uma e-infraestrutura pública de dados, informações e ferramentas de livre acesso a serviço da pesquisa, educação e políticas públicas. Antes restrito às coleções biológicas do Estado de São Paulo, a partir de 2004 a rede foi ampliada para integrar acervos de outros estados e, a partir de 2006, dados sobre espécimes coletados no Brasil, mantidos em coleções do exterior. A figura a seguir mostra a rede em 2003, restrita a coleções do estado de São Paulo, e em 2015, com pontos de presença em todos os estados da União.




Distribuição geográfica dos provedores de dados da rede speciesLink nos anos de 2003 e 2015

O grande salto no desenvolvimento da rede speciesLink nos últimos 6 anos é resultante do apoio do CNPq ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia – Herbário Virtual da Flora e dos Fungos (INCT-HVFF). O INCT-HVFF hoje é responsável por mais de 70% dos dados disponibilizados na rede speciesLink. Os demais dados são procedentes de coleções zoológicas (24,4%), microbiológicas (0,2%), fósseis (0,1%) e dados de observação de plantas e animais (4%).

Evolução do compartilhamento on-line de dados sobre a ocorrência de espécies


Desenvolvimentos realizados no escopo do INCT-HVFF


e-Taxonomia

Um importante avanço do Herbário Virtual foi o desenvolvimento do serviço de imagens (exsiccatae) que permite a inclusão de imagens das exsicatas dos registros on-line. O serviço é uma importante ferramenta para a comparação e identificação de material à distância.


Ferramenta Exsiccatae

Com a meta inicial de disponibilizar 50 mil imagens, a ferramenta exsiccatae hoje integra quase 1 milhão de imagens, 600 mil de exsicatas, 11 mil de material vivo, 2 mil de pólen, 300 mil imagens de etiquetas de amostras, e todas as imagens da obra Flora Brasiliensis[1] com 3.828 pranchas e 10.215 páginas com a descrição de 22.550 espécies.


Modelagem da distribuição geográfica de espécies (BioGeo[2])

O sistema permite a geração e compartilhamento de modelos da distribuição geográfica potencial de espécies sob a supervisão de especialistas voluntários.

Modelagem da distribuição geográfica da espécie Passiflora actinia

O sistema conta com 117 especialistas cadastrados, responsáveis pela publicação de modelos de distribuição geográfica para 3.465 espécies. O grupo das Angiospermas possui 3.765 modelos – algumas espécies possuem mais de um modelo. Assim, já existem modelos de distribuição potencial para cerca de 10% das Angiospermas que ocorrem no Brasil.

Identificação de lacunas de dados e conhecimento

O sistema Lacunas[3] indica o status dos dados de todas as espécies da Lista da Flora e dos Fungos do Brasil. Apresenta a relação das espécies sem registros no Herbário Virtual, auxiliando o Comitê Gestor do INCT-HVFF na definição de estratégias para incluir novos acervos e dados à rede. Em janeiro de 2013 o sistema Lacunas indicou que 21% das espécies conhecidas de briófitas, 64% dos fungos e 10% das samambaias e licófitas não tinham nenhum registro no Herbário Virtual. O Comitê Gestor do INCT-HVFF definiu estratégias para diminuir essa lacuna como a contratação de bolsistas para a digitação de dados de acervos desses grupos, a inclusão de novos acervos à rede e a visita de especialistas a herbários com material não identificado. O resultado foi a queda do número de espécies sem registros no herbário virtual para 12% (briófitas), 41% (fungos) e 5% (samambaias e licófitas) em janeiro de 2015.
O sistema também aponta as lacunas geográficas por gênero e espécie, e indica quais espécies estão ameaçadas de extinção. Por fim, integra ao relatório as fichas de análise e avaliação de risco de extinção através do serviço web disponibilizado pelo CNCFlora (Centro Nacional de Conservação da Flora), os dados da Lista de Espécies da Flora do Brasil e os modelos de distribuição geográfica disponibilizados pelo BioGeo.

Página do relatório Lacunas para a espécie Adenocalymma dichilum


Uso e Reuso dos Dados e Ferramentas

Em 2014, o número médio de registros visualizados na rede speciesLink (plotados em mapas, gráficos, listados, downloads) foi de 1,4 milhão por dia. Mais de 95% dos acessos à rede foram realizados por usuários do Brasil, seguido pelos dos Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Argentina, Portugal, Itália, México, Holanda e Colômbia. Como o objetivo da e-infraestrutura é promover a e-ciência e apoiar a formulação de políticas públicas e processos de tomada de decisão no Brasil, esse resultado é muito importante e indica que a e-infraestrutura está atingindo uma de suas principais metas que é a apropriação local dos dados e conhecimento.

 Acesso à rede speciesLink (2014)

A avaliação dos acessos no país indica as cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Recife, Campinas, Brasília, Curitiba, Porto Alegre e Salvador como as que mais utilizam a e-infraestrutura. Isso coincide com os grandes centros de pesquisa e ensino superior do país, as redes metropolitanas instaladas pela RNP e a existência das coleções biológicas participantes da rede.


Impacto


No Desenvolvimento Científico

95% dos herbários do INCT-HVFF, estão associados a programas de pós-graduação e incluíram temas como o uso dos dados e ferramentas da rede speciesLink nas disciplinas oferecidas. Como consequência dessa ação, acervos foram ampliados graças ao depósito de material associado à pesquisa de pós-graduação. Outro resultado foi a crescente participação de alunos no sistema BioGeo, aumentando o número de modelos de distribuição geográfica de espécies compartilhados on-line. Graças a essa interação, hoje cerca de 10% das espécies de Angiospermas do país citadas na Lista de Espécies da Flora do Brasil possuem modelos de distribuição geográfica on-line.

Em relação à produção científica, outro indicador importante é a evolução do número e da qualidade das publicações. A figura a seguir mostra um nítido aumento da quantidade de publicações de maior impacto na comparação entre os períodos de 2007 a 2009 e 2010 a 2012.

Número de publicações por tipo de publicação


Nas Coleções Biológicas

Em abril de 2015, como parte da avaliação do projeto do INCT-HVFF, foi enviado um questionário que foi respondido por 39 dos 100 herbários da rede. Além das questões mais objetivas em relação aos itens que receberam apoio direto como digitação dos dados, digitalização das imagens e melhora da qualidade dos dados, buscou-se saber se o fato de participar da rede e compartilhar os dados on-line trouxe outros benefícios.
  • 82% indicaram um maior reconhecimento institucional;
  • 72% indicaram um maior envolvimento com a pós-graduação;
  • 85% indicaram um aumento nas visitas ao herbário; e,
  • 74% indicaram um aumento do acervo pelo maior envolvimento com alunos da pós-graduação e através da permuta de material, graças à visibilidade do acervo on-line.


Em Políticas Públicas

Indicadores importantes em termos de políticas públicas relacionados à evolução da e-infraestrutura de dados são representados na figura a seguir e incluem:
  • Preparação e apresentação do trabalho “Diretrizes e estratégias para a modernização de coleções biológicas brasileiras e a consolidação de sistemas integrados de informação sobre biodiversidade” (MCT, 2006), mais conhecido como Livro Laranja, que foi base para o desenvolvimento do INCT-HVFF;
  • Programa PROTAX, fundamental para a formação de novos taxonomistas;
  • Flora Brasiliensis on-line, importante referência para estudos taxonômicos;
  • Aprovação do projeto INCT-HVFF;
  • Desenvolvimento da Lista de Espécies da Flora do Brasil como um trabalho em rede e on-line; e,
  • Portaria No. 443/14 do MMA sobre espécies ameaçadas de extinção do país, que utilizou os dados da rede speciesLink no processo de avaliação.

    Evolução dos dados compartilhados na rede speciesLink e alguns marcos históricos

A e-infraestrutura como referência para os especialistas responsáveis pela elaboração da Lista de Espécies da Flora do Brasil e para o Projeto Lista Vermelha que avaliou o risco de extinção de espécies da flora brasileira mostra também a sua importância para políticas públicas.
Assim, a e-infraestrutura speciesLink é resultante das estratégias e políticas desenvolvidas ao longo dos últimos 14 anos e da articulação da comunidade científica (principalmente botânica) do país. A rede social desenvolvida, atuando de forma integrada, é o principal fator de sucesso, sendo diretamente responsável pelos excelentes resultados alcançados.

Referências 


Egler, I., Santos, M.M. & Canhos, V.P.. (Org.). Diretrizes e estratégicas para a modernização de coleções biológicas brasileiras e a consolidação de sistemas integrados de informação sobre biodiversidade. 1aed.Brasília, DF: Ministério da Ciência e Tecnologia, 2006

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